Viver
“O conceito de arte está ultrapassado”
Fábio Seixo
Professor e crítico de arte Fernando Cocchiarale debate a diversidade da produção artística contemporânea
Professor e crítico de arte Fernando Cocchiarale debate a diversidade da produção artística contemporâneaYuno Silva - Repórter
Injetar sangue nas paredes esburacadas de edifícios que fazem parte do Patrimônio Histórico da cidade, com o intuito de despertar a magnitude de outrora; construir versões simplificadas dos jardins suspensos da babilônia no terminal rodoviário; desenhar marcações de acidentes em ruas movimentadas da cidade, chamando atenção para a falta de educação no trânsito... essas são apenas algumas das surpresas preparadas para ilustrar as comemorações do Dia do Artista Plástico (8 de maio), e estão fazendo parte do cotidiano da capital potiguar durante essa semana.
Tais experimentações e intervenções urbanas (oito no total), mais ciclo de palestras, exposições e feira de artes fazem parte da programação proposta pelo Núcleo de Artes Visuais da Fundação Capitania das Artes, que segue até o próximo sábado. As intervenções começaram ontem na cidade.
Mesmo os mais desatentos não ficarão alheios às comemorações, pois uma série de obras estarão circulando nas janelas traseiras de seis ônibus urbanos (busdoor) com releituras atuais de trabalhos do artista plástico Moura Rabelo, o grande homenageado deste ano – um sétimo ônibus será inteiramente grafitado ao vivo no dia 9, às 16h, em frente à Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern), Ribeira, durante realização da Feira de Artes Visuais, onde obras estarão expostas e à venda por preços acessíveis (até R$ 50).
Hoje, às 19h, no auditório da Funcarte, o crítico de arte e curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro professor Fernando Cocchiarale, e o artista plástico potiguar Fábio di Ojuara encerram o ciclo de debates com a palestra “A Diversidade na Produção da Arte Contemporânea: Meios, Linguagens e Discursos”.
Para tentarmos desmistificar esse conceito de arte contemporânea, se é que é realmente necessário compartimentar o pensamento em relação à essas novas possibilidades artísticas, o VIVER conversou com o artista carioca Fernando Cocchiarale sobre o assunto.
Autor de várias Mostras, especialmente em vídeo, no Brasil e no exterior, Cocchiarale integrou – no início da década de 1990 – a conceitual retrospectiva “Anos 70 – Fotolinguagem”, exposição coletiva e comemorativa que esteve em cartaz no Parque Lage, Rio de Janeiro. Formado em filosofia pela PUC-RJ, passou a escrever sistematicamente para publicações de arte e hoje atua como professor de História da Arte e Estética do curso de especialização em História da Arte e Arquitetura no Brasil. Também é curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Essa busca pela contemporaneidade não acaba reprimindo a produção e deprimindo os artistas, principalmente aqueles que ainda estão em busca da própria personalidade?
Na verdade, esse é um sentimento que atordoa, desnecessariamente, artistas de todo o mundo: não há busca nenhuma pela contemporaneidade, pois estamos vivendo inseridos nela. Ela está aí, não precisamos procurar nada. Basta acreditar no que se está fazendo e refletir nos motivos que instigaram a criação.
E é possível, dentro de um contexto histórico, conceituarmos a arte contemporânea?
Não há essa possibilidade teórica se continuarmos restritos aos conceitos criados há 500 anos. O que as pessoas (artistas e público) precisam perceber é que o conceito de arte que está impregnado na sociedade ocidental é ultrapassado, arcaico, onde a arte estava distante do cotidiano e era vista – simplificadamente - como o objeto belo que fica exposto em um pedestal ou fixado na parede. Bastava apenas existir e estar à mostra em lugar propício (museus, por exemplo) para ser considerada arte.
Há então uma crise?
Exato, essa tentativa de se conceituar a arte contemporânea está em crise há, pelo menos, uns 60 anos. Ainda acredita-se que algo que está próximo ao próprio cotidiano não é arte. Hoje a arte pode ser útil, ter uma utilidade real no dia-a-dia das pessoas e isso é difícil mesmo de ser entendido de uma hora para outra. Ainda produzem e pensam arte sob a ótica exclusiva do objeto, o que implica na redução dos processos criativos à esfera do fazer. Na arte contemporânea há toda uma reflexão, que propõe um pensamento sobre a própria arte.
Por isso o estranhamento por boa parte do público?
Não que seja estranho, na verdade é o contrário: a arte contemporânea está bem mais próxima de nós do que antes, e talvez, justamente por isso, as pessoas estranhem. Estranho mesmo é o conceito ultrapassado de que a arte deve ser contemplativa. Inclusive, cada cultura tem seu próprio conceito: um católico enxerga uma imagem diferente de uma pessoa de outra religião, por exemplo.
A arte contemporânea é efêmera, uma vez que performances e intervenções são temporais?
Se considerarmos a efemeridade temporal sim, ela é efêmera. Mas se considerarmos o registro dessas ações teremos a perpetuação dessa arte.
* Tribuna do Norte, de 07/052009
* A parte do texto grifada em vermelho, corresponde a minha IntervençãoVEIAS ABERTAS DA CIDADE, obra em processo...


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