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    @civonemedeiros

    Do portal PAPO FURADO by Jairo Lima - O analfabeto cultural


    O analfabeto cultural. François Silvestre
    Enviado pelo autor
    Publicado no Novo Jornal de Natal
    O analfabeto cultural não é necessariamente inculto. Na maioria das vezes é instruído e até erudito. O analfabetismo cultural decorre de uma morbidez original. O analfabeto cultural não se satisfaz com a fonte de sua origem. Isso nada tem a ver com caráter ou instrução. Pode ser um excelente caráter e ter exuberante formação acadêmica.

    Certa vez, numa reunião de médicos, amigos de Suelene, Juraci Amorim, tio da doutora, identificou um dos presentes. Era um médico famosíssimo da cidade. Disse Juraci: "Tô lembrado de você, ainda rapaz, lá do Alecrim". O médico aboticou os olhos e rebateu: "O senhor deve estar enganado. Não me lembro de ter freqüentado o Alecrim".

    Depois Juraci me confirmou até o endereço, nome de rua e número da casa, do ilustre médico. Um homem importante, com mestrado e doutorado no estrangeiro, reconhecido pelos colegas como um craque da medicina. Mas analfabeto cultural. Por simples vergonha da origem.

    Outra aconteceu no boteco de Mano, lá na Praça do Tijolo, próximo da Antônio Basílio. Conversava eu com o pai de outro famosíssimo médico. Lá pras tantas comentei que conhecera o seu filho, na Casa do Estudante. Ele rebateu: "Só se foi de visita, porque graças a Deus ele não precisou morar lá". E era verdade. O referido médico visitava os conterrâneos pobres. O que para muitos é um orgulho, incluindo-me, ter morado na Casa do Estudante; para aquele senhor, era uma mancha curricular.

    A vergonha das origens. Há até quem se envergonhe dos pais. Seja pela feiúra, pela pobreza, pela ignorância. Há quem esconda a mãe. Ela que é a primeira fonte cultural. Nesse campo, tudo se relaciona. O afeto, esse nó dado no espaço, também se intromete na seara cultural.

    Conheci um professor de inglês que era acometido desse analfabetismo. Ele detestava feijão com arroz. "Até gosto do gosto, mas me lembra essa pobreza daqui". Nascera nas Quintas, sonhava com Manhattan. "I Love potatos". Um figuraço de boa gente, profundamente insatisfeito com suas raízes. Doido pra se arrancar delas.

    Não existe cultura universal. Se isso ocorresse, o mundo viraria uma praça uniforme de tédio e monotonia. Cultura não é só produção de bens e arte. É também o estuário das diferenças. A uniformidade cultural não é apenas uma farsa, é uma impossibilidade. Lição de Chaplin: A vida é um assunto local.

    Vestir-se de poncho e tomar chimarrão num pavilhão de Pau-dos-Ferros não é só ridículo, é desconfortável. Um paulistano nato não sente o gosto da tapioca. Um matuto de Umarizal não troca uma cantoria de viola por uma banda de rock.

    Estudar, aprender, conhecer, apreciar e até consumir a cultura dos outros é tão saudável quanto viver e amar. Sem necessidade de substituir vida e amor próprios pelo viver e amar dos outros. Ou fazer de Natal uma Londres paraguaia. Té mais. 


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